quarta-feira, 19 de março de 2014

Atrasar

(atrás + -ar)
verbo transitivo
1. Não dar expediente tão rápido como é devido. = DEMORAR ≠ ADIANTAR
2. Fazer retrogradar.
3. Alterar a hora de um relógio para antes do tempo que ele está a marcar. = RETARDAR ≠ ADIANTAR
verbo intransitivo
4. Ter (o relógiomovimento mais lento que o devido. ≠ ADIANTAR
verbo pronominal
5. Ficar para trás.
6. Chegar tarde.
7. Ter pagamentos em dívida.

Mas porque raio tinha aceite fazer aquela reunião no dia do regresso? Conhecia o trânsito de Kinshasa e sabia que a escassa distância até ao aeroporto de N’Djili podia levar horas a percorrer.

Tinha aceite porque era incapaz de deixar sem resposta as solicitações do seu exigente trabalho. Vivia apenas para cumprir prazos, fazer contactos, entregar projectos. Vivia apenas para o seu trabalho.

Entregava-se a este pensamento, para si atipicamente ocioso, no táxi enterrado no mais caótico trânsito que África consegue produzir, rodeado por todos os lados de carros e pessoas e animais a puxar carroças.

Tentou focar-se. Gostava de focar-se. Pegou no telefone para tentar responder a emails mas depressa se voltou a dispersar nos pensamentos que desejava afastar. Lembrou-se da conversa da véspera com Moudjibou, o encarregado da obra em Mangai, nas margens do rio Kasai. Exasperado com o desdém da equipa local pelo cumprimento de prazos, quis explicar a Moudjibou  a importância de fazer as coisas atempadamente:

- Vês aquela água que está agora a passar por debaixo da ponte? Nunca mais voltará a passar por ali. É por isso que é vital aproveitar as oportunidades, não deixar para amanhã o que hoje deve ser feito.

Moudjibou fez um gesto aquiescente. Tomou o seu tempo e retorquiu:

- É certo que aquela água não voltará. Mas já viste a enorme quantidade de água que continua a fazer o seu caminho? O caminho que faz há tantas gerações? Porque razão precisamos exactamente daquela?

Rendeu-se. Não tinha resposta para Moudjibou. Continuava a tentar encontrá-la até ser interrompido pelo taxista que anunciava terem chegado ao aeroporto.

Pagou rapidamente e correu como um louco à procura da porta de embarque. Corria mas não parava de pensar no disparate que era correr. No tempo que tinha perdido a correr atrás de aviões, de clientes e de contratos até ser barrado pela funcionária que o informou que o avião para Lisboa acabara de partir. Désolée, disse ela.

Mas ele não estava desolado. Começava a perceber que o seu destino não era Lisboa. Começava a aprender a lição de Moudjibou e deu por si a olhar para o placar das partidas, à procura de um destino onde não tivesse de correr.

Algumas horas mais tarde foram entregues nos perdidos e achados do aeroporto uma pasta e um telefone. Neste, um último email:

Para: Sede
Assunto: Despeço-me


Não consigo correr mais.

2 comentários:

  1. A vida dos nossos dias. Pena que nem todos possamos dar esse grito do Ipiranga!!!

    ResponderEliminar