segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Verdade


(latim veritas-atisverdadesinceridaderealidade)
substantivo feminino
1. Conformidade da ideia com o objectodo dito com o feitodo discurso com a realidade. ≠ ERROILUSÃOMENTIRA
2. Qualidade do que é verdadeiro. = EXACTIDÃOREALIDADE
3. Coisa certa e verdadeira. ≠ ILUSÃOMENTIRA
4. [Por extensão]  Manifestação ou expressão do que se pensa ou do que se sente. = AUTENTICIDADEBOA-FÉSINCERIDADE ≠ MENTIRA
5. Princípio certo. = AXIOMA
6. [Belas-artes Expressão fiel da naturezade um modeloetc.


Todos estavam agora num silêncio absoluto e com os olhos bem abertos, suspensos em cada palavra sua. Animado por isso, e pela necessidade de derrubar o cepticismo que ainda via na expressão da Senhora Sigurdottir, Ollafur continuou:

Depois de, com a ajuda de Thor, termos levado o califa a implorar de joelhos pela vida, largámos de al-Yazirat em direcção ao grande mar. Contornámos o al-Garb e rumámos a norte, ansiosos por regressar às nossas famílias e trazer em segurança o tesouro conquistado aos maometanos que recheava os porões dos dois orgulhosos drakkar que, imortais como Odin, rasgavam as ondas.

Assim que passámos a costa do Reino do Francos, ao princípio da décima noite de viagem, o mar começou a alterar-se. As ondas, picadas pelo vento de proa, começaram a vencer com cada vez maior ânsia os costados e, em menos de nada, estávamos no centro da maior tempestade que alguma vez vi.  Gufdrum, meu pai, rapidamente largou o leme e num único golpe cortou o cordame da vela que de imediato voou num panejar infernal.

Harald, o comandante do segundo drakkar, nem teve tempo de reagir. Uma vaga de estibordo foi mais forte que o cavername fragilizado pelo peso exagerado dos tesouros sarracenos e quebrou-lhes o casco em dois. Foram segundos até deixarmos de ouvir gritos dos bravos, abafados que foram pelas ondas que os levaram de nós e que, pelas mão das valquírias, estão agora em Valhalla.

Não perdemos tempo a chorá-los. O meu pai, mais forte que o ciclone e que o mar vingativo tinha retomado o leme e comandava a cadência dos que remavam ao mesmo tempo que ordenava aos outros que deitassem à água a preciosa carga, agora um estorvo.

Os olhos dos outros miúdos reflectiam a tempestade que ouviam contar sem  ousarem sequer respirar. A professora continuava impassível. Ollafur não desarmou:

Foram pelo menos dez horas de uma luta desigual. De um esforço só possível porque nós, filhos de Thor, somos os mais bravos guerreiros que jamais pisaram a face da terra. Só com o raiar do dia deixámos a tempestade para trás, voltando, sãos e salvos, a casa.

Infelizmente, Senhora  Sigurdottir, também só com o raiar do dia me apercebi que, no afã de aliviar o porão, também as pedras rúnicas contendo os deveres que nos marcou ficaram no mar, razão pela qual não os pude entregar. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Surreal

(francês surréel)
adjectivo de dois géneros
1. Que apresenta características próprias do surrealismo. = SURREALISTA
2. Que causa ou denota estranheza, não pertencendo à esfera do real. = ABSURDO, BIZARRO, ESTRANHO
substantivo masculino
3. Aquilo que está para além do real.

Tenho de confessar que a pintura pouco me comove. Tirando meia dúzia de excepções sou perfeitamente incapaz de perceber o apreço, emoção e o entusiasmo com que os outros reagem às obras de pintores que sei serem incontornáveis no caminho que a humanidade fez  desde que deixou de pintar paredes nas cavernas.

As excepções são poucas como disse e dividem-se em duas categorias: a pintura renascentista e a produzida pela minha filha desde os seus primeiros anos. A primeira pelas razões óbvias; porque se consegue discernir o objecto reproduzido, pelo talento em reproduzir luzes, sombras e reflexos e pelas histórias que muitas vezes encerram. A segunda, a que prefiro, porque vem  habitualmente (cada vez menos, é certo) acompanhada de amorosas dedicatórias e corações desenhados.

Isto para dizer que os célebres e surreais Miró são, para mim, pouco apelativos. E sê-lo-iam mesmo que o pintor mos tivesse dedicado, enchendo-os de corações e de “adoros-te”.

O que eu definitivamente não adoro é casos como o do BPN. Chamem-me picuinhas mas chateiam-me as coisas que me custam dinheiro sem que delas tire proveito. Por isso gostava que não houvesse outra coisa igual. Fazia falta ter algo que não nos deixasse esquecer que o BPN aconteceu. Que mantivesse viva a memória das profundezas a que o engenho humano (convencionemos assim) pode chegar.

Pelas piores razões o estado português, todos nós, adquiriu a maior colecção de pintura do artista catalão. Porque não aproveitar essa herança e fazer dela um símbolo da maior burla de que o país foi vítima?

Pô-la num museu e explicar como é que ela chegou até à posse pública, seria uma boa maneira de tirar partido de uma coisa má. É um bocado como pensar no desemprego como uma oportunidade. No fundo, obrigávamos os quadros a sair da sua zona de conforto e voltarem para cá, onde podem desempenhar uma função socialmente útil.

Continuando na senda das oportunidades, as receitas desta colecção podiam ser complementadas com a venda de memorabilia: aventais, compassos, réplicas de cartões partidários, cópias das ordens de venda de acções ou t-shirts a dizer “mind the BPN”.


Surreal, não é? Pois é.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Arredio

adjectivo
1. Que anda arredado dos lugares ou pessoas que frequentava.
2. Arisco.

Aqui há tempos vi um documentário sobre os hikikomori, jovens japoneses que se isolam nas suas casas e são incapazes de manter qualquer contacto com o exterior, em alguns casos durante décadas.

Em Portugal temos um caso notável dessa patologia: o Banco de Portugal. Diz-nos a história recente que quando o polícia do nosso sistema financeiro quer saber o que se passa não vai lá ver. Manda perguntar por escrito. Parece que os excelentes quadros do Banco de Portugal não gostam da realidade que vive fora dos seus gabinetes. Afligem-se de a ver, cheirar ou tocar.

No mais recente sintoma, o Banco de Portugal lançou na sua página um inquérito sobre a qualidade das notas em circulação. Seria mais fácil ir para uma agência bancária ou uma banca de peixe, sítios onde parece que circulam algum dinheiro, mas isso obrigaria a contactar com as notas cujo estado se quer conhecer, o que é inconcebível para o arredamento a que o Banco se condena.

O inquérito é um pouco pobre. Tem apenas dez perguntas, quatro das quais sobre os dados do respondente, deixando apenas seis para aquilo que supostamente querem saber, o estado das notas. Claro que um questionário tão exíguo deixa de fora as características que mais nos preocupam, a sua escassez e fugacidade. As notas rareiam e as poucas que nos entram na carteira arranjam logo um pretexto para sair. 

Sendo curto, o inquérito não deixa de mostrar que a boa disposição não abandonou o supervisor. Das seis perguntas sobre notas, duas respeitam às de 50. Ver uma nota dessas na minha carteira é como ver nevar em Lisboa, uma ocasião rara e feliz. Em vez de perguntarem pelas notas de vinte (frequente como a chuva, para manter a analogia) ou de dez (algo que vejo tantas vezes como táxis a cair de maduros), escolheram a via do humor sardónico e perguntam-nos sobre algo que desconhecemos. Como é que sei que nos estão a gozar? Porque uma das opções de resposta é “não sei”. Mais cómico só acrescentando “nunca vi”.

O que o Banco de Portugal nos quer secretamente dizer é que sabe que está doente – que é um hikikomori  - mas continua de bom humor.

É certo este padecimento já nos tem custado muito caro. Eu percebo que as notas são como os BPN, coisas muito asquerosas em que não apetece tocar, mas alguém tem de ir lá ver o que se passa e esse é o trabalho deles.

Se o estômago é fraco, há que mudar de ramo. Da venda de cupcakes  à carpintaria de limpos há muitas actividades higiénicas, produtivas e gratificantes por onde enveredar. Áreas em que se pode ser pago por via electrónica de modo a evitar a porcaria que nunca deixará de se agarrar ao dinheiro.



domingo, 26 de janeiro de 2014

Praxe

(grego prâksis, -eos, acção, transacção, negócio)
substantivo feminino
1. Uso estabelecido. = COSTUME, ROTINA
2. Sistema ou conjunto de formalidades ou normas de conduta. = ETIQUETA, PRAGMÁTICA
3. O mesmo que praxe académica.

praxe académica
Conjunto de regras e costumes que governam as relações académicas numa universidade, baseado numa relação hierárquica.



No meio da justificada repulsa pela praxe que as mortes no Meco tem gerado por todo o lado não encontro quem constate um facto que me assalta quando penso no tema: os participantes são adultos.

Serem adultos - em português prosaico maiores e vacinados - significa que são indivíduos presumivelmente capazes de decidir entrar ou não nesse jogo de natureza sádica ou masoquista consoante o papel que lhes cabe.

Se um adulto usa o livre arbítrio que a lei lhe concede para surfar ondas de 30 metros, para se juntar a uma claque de futebol, para fumar três maços por dia ou para alinhar na praxe, é algo que só a si dirá respeito. Estar a culpar as praxes pela morte dos miúdos equivale a culpar as férias pelos que também morrem na praia no Verão.

Parece que as praxes são cada vez mais abjectas. Que facilmente descambam em violência física e moral degradante (e fatal, aparentemente) para quem a elas se submete. Isso deve ser perseguido pela justiça. Porque para isso já há leis.

O que pode e deve ser feito é ensinar aos miúdos que têm o direito de não participar. E vigiar e julgar criminalmente as azémolas que lhes  tentarem negar esse direito.


Ao contrário do que diz o Priberam, não há uma relação hierárquica a suportar as regras que formam a praxe. Há antes uma boçalidade que reproduz os instintos mais primários de alguns indivíduos que, felizmente, sendo hoje legalmente puníveis, serão tanto mais raros quanto melhor for o conhecimento sobre os direitos individuais inalienáveis.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Referendo


(latim referendus, -a, -um, particípio passado de refero, referre, trazer ou levar de novo, remeter, dar, responder, relatar)
substantivo masculino
1. [Diplomacia]  Mensagem que um representante diplomático expede ao seu governo a pedir novas instruções.
2. [Política]  Direito que têm os cidadãos de se pronunciarem directamente sobre as grandes questões de interesse geral.
3. Votação em que se exerce esse direito. = PLEBISCITO


A juventude existe para almofadar o choque entre o mimo inconsciente da infância e a brutal responsabilidade exigida quando chegamos à idade adulta. É a idade em que recebemos a liberdade, a vitalidade, a sensibilidade e a imaginação que antes não tínhamos e que, com a chegada ao estado adulto, nunca mais voltará.

É um estado, um estágio se preferirmos, em que podemos, sem consequências de maior, fazer aquilo que nos der na real gana. Serve para experimentar e ultrapassar os limites que mais tarde irão conduzir a nossa vida. A juventude é (e deve ser) um tempo em que investimos  em coisas como concertos de rock ou de música clássica, paixões violentas ou insignificantes, amizades eternas ou fugazes, viagens reais ou imaginárias – estas habitualmente proporcionadas por livros, estupefacientes ou diferentes tipos de bebidas alcoólicas -, e, acima de tudo a aprender. E é indispensável aprender muito nem que para isso se tenha de estudar. É a altura em que se exige que exageremos.

O que sempre me escapou ao entendimento é a opção dos que preferem gastar esse tempo de ouro (e de lama e de areia – preferencialmente da praia) aderindo a juventudes partidárias. Não ignoro que a juventude é a altura dos idealismos puros e exacerbados mas confundir isso com partidos políticos é como pegar em bugalhos para temperar a carne.

As jotas são a maneira de evitar a juventude tecnicolor e entrar directamente para o cinzentismo da idade adulta. As jotas são as juventudes cotas.

Os cotas partidários – especialmente os que já foram jotas - adoram as juventudes. Gostam do seu particular apreço por colar cartazes, buzinar nas campanhas e fazer claque em comícios.

Não me lembro de alguma vez ter visto o símbolo de uma jota no boletim de voto mas, aparentemente, têm acesso ao parlamento e conseguem estropiar o processo legislativo, anulando uma lei já votada em plenário e levando-a a referendo eleitoral. Não vale a pena tentar perceber se o fazem por frete ou por convicção: o nível de requinte é tão escatologicamente baixo para ambas que torna o esforço interpretativo perfeitamente escusado.

O que vale a pena é rentabilizar o custo do acto referendário (austeridade é coisa para velhinhos e funcionários públicos) para voltar a consultar a população sobre coisas importantes. Como diz o Priberam, sobre as grandes questões de interesse geral. Como o aborto, por exemplo.

Assim, deixo à discussão pública, pergunta formulada e tudo, a seguinte consulta sobre o aborto, essa chaga social:


- Devem os elementos da jotas ser impedidos de emitir qualquer opinião política antes de, comprovadamente, terem alcançado um nível intelectual igual ou superior ao de um gafanhoto?